O que posso dizer, em primeiro lugar, é que este anúncio representa, na prática, uma reafirmação do que sempre dissemos: os Pais da Nação são, efetivamente, aqueles que lutaram, lideraram e tornaram possível a independência de Angola.
O reconhecimento pela independência deve ser sempre um ato de mérito, nunca um ato de perdão.
O próprio Presidente João Lourenço, no discurso de hoje, falou “no espírito do perdão”.
Mas perdoar os Pais da Nação? Isso não faz sentido.
O reconhecimento aos fundadores da Pátria deve ser igual e justo para todos, não uma concessão, muito menos uma forma de perdão.
Incoerência e falta de seriedade
Há aqui um ponto que deve ser lembrado: a mesma bancada parlamentar que hoje aplaudiu este anúncio é a mesma que, há pouco tempo, votou contra a proposta de lei que reconhecia todos os Pais da Independência.
Isso revela falta de coerência e seriedade política.
No fundo, a pressão da sociedade e das forças políticas, incluindo a UNITA, produziu resultados.
Mas foi um percurso desnecessário, cheio de recusas e contradições.
A pergunta é: para quê tanto desgaste, se o desfecho era inevitável?
A coragem de corrigir
A UNITA nunca mudou de posição.
Quem mudou foi o Presidente da República e o MPLA.
Ainda assim, é positivo quando alguém tem a coragem de corrigir um erro.
Mas não aceitamos a ideia de perdão — o reconhecimento dos fundadores da Nação é um dever histórico, não um gesto de benevolência.
Um discurso distante da realidade
Sobre o discurso do Estado da Nação, continuo a considerar que este modelo é cansativo, longo e pouco prático.
O Presidente falou muito, mas não trouxe soluções concretas.
Não falou da fome, nem da extrema pobreza, nem do desemprego juvenil, nem da corrupção que corrói as instituições.
Falou de um país que, muitas vezes, não é o mesmo que o cidadão vive.
As autarquias continuam esquecidas, apesar de serem essenciais para aproximar o poder das populações.
E a justiça, tão elogiada no discurso, é hoje vista com descrédito e desconfiança pela maioria dos angolanos.
Angola precisa de verdade e coerência
Portanto, foi um discurso monocórdico e distante do país real.
Angola precisa de um rumo mais inclusivo, mais verdadeiro, com diálogo e coerência.
Nos 50 anos da independência, seria de esperar um gesto simbólico da Assembleia Nacional — um grande debate nacional, um momento de unidade, mas isso não aconteceu.
Há, portanto, muito a corrigir.
O essencial é que caminhemos com verdade, coerência e transparência, para que o destino de Angola seja construído por todos os seus filhos.
Muito obrigado.
Entrevista à Rádio Comercial Despertar

